quarta-feira, 6 de junho de 2012

Sobre gestos e redenção

não há nada que redima o gesto impuro
como a palavra proferida
- que não retorna à boca;
o cristal partido
- que não se refaz límpido;
a fumaça que não retorna
ao tronco queimado;
cada pétala arrancada à rosa

não, há dor feita, sim, para doer
e cumprir seu mais divino papel:
ensinar

quinta-feira, 17 de maio de 2012

vem devagarinho ...

... que tudo ainda me arde
chega meio sumindo
como o Sol em fim de tarde
esgueira teu rosto, lindo
e liberta minha vontade

chega assim
como quem não quer nada
finge que não é por mim
essa tua saia rodada
e displicente o alecrim
que derramas à entrada

finge que não te importa
a lágrima qu’inda derramo
que tu não me provocas
o sorriso, desenhando
e não ligaste pra meus olhos
de te ouvir dizer: “Nando?”

dize-me assim, bem faceira
que não estás nem aí
pra esta minha maneira
de olhar encantado pra ti
e, se vieres, vem toda, inteira
e minto que eu é que te seduzi

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Tá bom, tá bom ...

escrevo porque a dor existe
ou quando o amor insiste
saltitados, ambos, em revezes


escrevo e quase quero
mas não devo - o inefável
ou tão somente e porque
de repente e às vezes
me é inevitável

domingo, 25 de março de 2012

Tocando-nos

“é das pontas dos meus dedos
a caminharem o caminho da tua voz
que desliza um rio de desatinos
a descer meu ventre,
o coração tocado por um afeto longínquo
e tão próximo que arde a minha pele”

são minhas mãos, abraço terno e firme,
a dançarem em mim o teu sussurro,
o teu canto regendo meu desejo,
que me levam a ti, explodindo a certeza
que só ao choro é dado adornar o gozo:
tão de ti, tão meu, tão apenas nosso


e quando não as mãos,
mas a esperança me assalta
desenha um meu sorriso
de tua fala amorosa,
e então é tanta coisa
me invadindo nessa enchente,
e então nem tanto o corpo
mas minh´alma é quem goza

sábado, 17 de março de 2012

Desconcordando

por mais que ame o que te escorre
há um gosto angustiante
a me prender no átimo que separa
o desejo indébito do saber incógnito


bem sabes que - como tu -
me alegra o bailar das consoantes
e das vogais e dos espaços
que as abrigam


mas sabes que assobio hinos
onde pretendes boleros;
que procuro gerúndios
onde brincas de pretérito;
que busco rotas
onde desejas portos;

sabes da minha pouca intimidade
em procurar-me onde posso não estar;


poderia receber-te diferente
é verdade - seria justo, lídimo e rico -
mas sabes que não tenho mais jeito


assim, ...
eu te amo


vou me perder nas páginas
de algum livro
imaginando passeios em teus jardins;
sublimar a letra de tua música
e me alimentar de tua melodia;


serei teu
sempre que a teu chamado
ou a meu colo
serei nosso, entre um ato e outro
serei meu, num e noutro


 

Visita

“pisarei com passos cuidadosos o teu chão,
porque é teu.
sentirei o odor da casa procurando-te,
os olhos a guardar cada detalhe
que será minúcia tua;
sim, serão passos cuidadosos,
um a um.
sem ruído, leves
até que encontre o beijo
e esqueça tudo."
não há passo teu
que não cuidadoso
não haverá pedaço de chão
acariciado por teus pés
que não seja teu
ou, ao menos
por ti;

não haverá detalhe
que não conte um pouco de mim
ou dos meus;

haverá um incenso odor no ar
queimado da haste
ou de tua presença
muito antes familiar;

haverá o beijo, sim
que faça esquecer
e que não seja esquecido;

mas
seguido ao beijo
- e antes de outro -
peço, quase imploro
o teu olhar atento
a meus olhos, meu olhar:
ele dirá que és bem-vinda
aos passos nos meus chãos
ao detalhe revelador
ao odor da casa
ao beijo...

e a mim

Estiagem

anda com teus pés descalços
sobre esses caminhos
de minhas manhãs


choveu!

vês as poças d´água,
que a terra bebe
num entrelace romântico de cálices
com o hálito haustelado do Sol?


molha teus pés e brinca na argila
roda teu vestido leve enquanto danças
recebe em tuas mãos os primeiros verdes

desse jardim, que virá

rola na relva, ao som de tua gargalhada...
brinca em mim...


cheira,
uma a uma,
as flores que me nascem:
são minhas, sim,
e são por ti.

quarta-feira, 14 de março de 2012

Falsos furtos

leio alheias poesias
como se lê jornal:
todos os dias

algumas de tanto
que espio
travesso
de canto
e me finjo que minhas


Você me conjuga

eu, que não deixei de ser menino
tu me adolesces, você me move
ELE, claro, deve estar neste hino
nós, me leva de volta aos 19
vós, como voz, a me elevar andino
eles - L´s - de love, love, love...

domingo, 11 de março de 2012

A Lua dizendo sobre brilhos de Sol

perguntei, noite dessas, à Lua:
- por que és símbolo, se não é tua
a luz que apenas finges brilhar?
se é do Sol que vem o teu manto,
se tomas de outro o teu encanto,
por que te exaltam a luz do luar?

disse-me assim, meio constrangida,
que são coisas que acontecem na vida
e que não é a única a brilhos roubar.
lembrou-me que eu - pedra dura e fria -
se brilho no rosto um ar de alegria
é de uma mulher que vem esse ar.

(calou-me... calei-me...)

Lapidar

o poema, por ti e para ti,
bate nervosamente as asas
querendo vo(lt)ar para teu colo

é difícil segurá-lo ao solo
- nem sempre consigo -
cumpre um toque aqui
(de beijo)
um retoque ali
(de carinho)
antes que, fortalecidas suas asas
possa levar a verdade
de toda essa tua canção
em mim

é o que me é sublime
é o que me exprime
é, se não consigo,
quase um crime!

então,
quando ele não me foge antes
levando os erros de minha aflição
para que o saibas
eu o solto ...

Precisança

o que eu canto
cabe num canto
sequer um ponto
qualquer desse conto
que teimo explodir


o que sinto
parece que minto
parece saudade
(estranho, verdade)
do qu´inda há de vir

Sou alguém comum,

que a multidão de homens comuns esconde
(ainda que charmoso não admitir);
algumas vezes fui maior, menor,
mais alto, mais baixo, mais feio, mais bonito;
sou tão incomum quanto qualquer homem comum;
algumas vezes nadei. outras, em corredeiras me arrebentei;
já morri muitas mortes e em todas renasci:
nem sempre certo
nem sempre errado
às vezes sequer diferente;
já desisti de viver muitos sonhos: jamais de sonhá-los;
quando definirem amor, talvez eu diga que já amei
ou que fui amado... não sei
mas, por Deus, eu sempre tentei;
não sei se sei quem sou ou mesmo se quero sabê-lo:
o que me encanta é a jornada;
sou alguém que busca e não sabe se quer encontrar;
já senti saudades doloridas de mim
já me escondi, apavorado
já menti, já matei, já fiz chorar, já magoei, já pisei
mas eu me lembro de quando lutei verdades
de vidas que dei
de lágrimas que sequei
de mágoas que tornei minhas
e vejo marcas de pés no meu corpo, também;
já chorei de dor ou por uma flor;
já dei porradas e recebi outras tantas, dolorosas
- e sobrevivi (ou levantei, sempre que cair foi inevitável);
já sorri sorrisos de muitas cores;
já dei e me esquivei de muitos abraços;
já beijei e fui beijado de muitos jeitos
dos falsos aos essenciais;
já transei, já “trepei”, já “comi”
e talvez um dia (sonho meu) eu venha a fazer amor;
já tive amigos
(e ainda os tenho, todos, mesmo que não se lembrem);
tenho o corpo de quem abraça
mas preciso ser abraçado, também;
já tive medo da morte, e já a desejei, e já a venci;
já tive medo da vida, e já a desejei, e já a vivi;
sou alguém que caminha pela estrada
às vezes de mãos dadas com a alegria
outras, abraçado pela tristeza;
tenho os pés no chão mas não me furto o prazer de voar;
tenho os olhos tristes (já o disseram)
mas consigo, aqui e ali, sorrir, mesmo que para esconder;
tenho estado num lugar ou noutro
nas horas certas e nas erradas;
tenho sido vários e espero jamais ter que escolher um;
tenho sido um pouco disso, daquilo
e talvez mais, e talvez menos: nada de mais, não!

saio por aí, voando ou me arrastando
e sempre volto para aqui:
sou alguém comum
que a multidão de homens comuns esconde.